Play Pequeno Monge Agostiniano – 1º Domingo do Advento – Ano A

Liturgia da Palavra

Isaías 2,1-5
Salmo 121(122)
Romanos 13,11-14
Mateus 24, 37-44




O tempo do desejo
A fé no Cristo dá origem imediatamente a uma "religião" do desejo. De fato, ela faz com que nos voltemos para o futuro, para o que vem; para Aquele que vem. Diante de tudo o que se passa no mundo, há os que fogem da confusão, indo buscar uma situação de conforto, de privilégio, ao abrigo de golpes e choques; os discípulos de Cristo recusam esta evasão.

Outros se revoltam e recorrem à violência; os discípulos de Cristo sabem que isto só faz multiplicar o mal inicial. Poderíamos citar diversas outras maneiras de se esquivar, mas a fé cristã recusa todas. A nossa fé está situada nos antípodas da resignação e, seguidamente, faz o nosso olhar voltar-se para a Potência que nos faz existir.
Esperamos e desejamos a vinda da Vida. O Livro da Primeira Aliança está cheio desta esperança, que se exprime muitas vezes por lamentações, gritos de apelo, intimações vigorosas a este Deus que tarda demais. Tudo isto se resume na espera do Reino de Deus. Na Nova Aliança, a tomada do poder por Deus está expressa no tema da volta, ou melhor, da última vinda de Cristo.
Assim, pois, aqui estamos nós, voltados para o futuro, para Aquele que vem. À primeira vista, se põem muitas questões: como esperamos a "intervenção de Deus", será que ainda temos alguma coisa a fazer? Não haverá aí, nesta espera, algo de mítico? Uma espécie de "deus ex machina"? Vamos buscar ver mais claro.
A vinda de Cristo no presente
Em primeiro lugar, é preciso conjugar o nosso texto com outras palavras de Jesus, quando nos diz, por exemplo, que o Reino de Deus já está aí, que ele está em nós, ou entre nós, ou no meio de nós (Mateus 5. 12, 28. Lucas 17, 20-21... ).
Assim como já somos filhos de Deus, mesmo que de modo ainda não manifesto, assim também o Reino está aí, desde que entre nós reine o mesmo amor tal como Cristo o viveu. É ilusório dizer, como tantas vezes se tem ouvido, que temos de fazer ou de construir o Reino de Deus.
A vinda do Cristo é um dom, e temos o poder de recebê-lo e transmiti-lo: o amor que nos vem de Deus, e que é Deus, pode nos atravessar para ir até aos outros. O Reino de Deus, portanto, que se confunde com a vinda do Cristo, já está em operação desde o começo e estará até o final, quando se revelará em plena luz. Então, poderemos reler a nossa vida em função do acolhimento dado ao Reino.
O "julgamento", que pode nos fazer tremer ou nos deixar céticos, será portanto este: os nossos olhos é que se abrirão à luz. Felizmente, como nos diz Paulo, "tudo o que é condenável é manifesto pela luz, pois é luz tudo o que é manifesto" (Efésios 5,13-14).
O Cristo é, pois, aquele que veio, que vem e que virá. O tempo do Advento vem de novo nos dizer tudo isso para que permaneçamos conscientes do mistério que nos envolve, desta presença que se faz presente novamente, sem cessar, sempre nova e imprevisível.
A espera e o encontro permanentes de Deus
Se não devemos acreditar nestes que dizem "Está aqui; está ali", é porque Ele está em toda parte, "do Oriente ao Ocidente". Ele vem ao nosso encontro em nossas alegrias, em nossas tristezas, em nossos períodos de vazio. Cada vez que o acolhemos, entramos no Reino.
Será preciso repetir que é através dos outros que Ele vem até nós, e que, se este Reino está "entre nós", é porque Ele reside na qualidade dos laços pelos quais nos atamos aos outros? A este respeito, podemos reler Mateus 25,31-46, interpretando o final inquietante deste texto à luz de Efésios 5,13-14, já citado.
Sabemos que o Novo Testamento veicula duas linhas, duas tradições contraditórias: uma, que anuncia o perdão para todos, inclusive para os carrascos (reler os relatos da Paixão) e, a outra, que reconduz às antigas maldições para os "injustos".
A meu ver, é, contudo, a Páscoa que diz a última palavra: "Pai, perdoai-lhes, eles não sabem o que fazem." De todo modo, o Evangelho nos prescreve uma espera e um desejo permanentes, a aspiração de ir mais além do que o que constitui a nossa vida até aqui, na certeza de que Deus vem seguidamente nos habitar.

Santo Agostinho explica que este desejo não tem necessidade de ser consciente, mas que pode e deve ser subjacente a todas as ocupações que a existência nos impõe. Como disse Jesus, felizes são estes a quem o Mestre, em sua volta, encontrar ocupados com a sua tarefa, uma tarefa que já deve ser recebida e vivida como um dom de Deus.