Podcast Play Pequeno Monge Agostiniano – tema do 19º Domingo do Tempo Comum – Ano C

Liturgia da Palavra
Livro de Sabedoria 18,6-9
Salmos 33(32),1.12.18-19.20-22
Hebreus 11,1-2.8-19
Lucas 12,32-48


Continuamos hoje com a leitura do Evangelho de Lucas. Lembremos que no domingo passado lemos a parábola da pessoa rica que constrói novos celeiros para reservar uma grande colheita “por muitos anos”. Ele “acha que dessa forma pode “descansar, comer, beber e alegrar-se” porque seu futuro está seguro”. Jesus ensina que os bens recebidos são para ser partilhados porque ninguém é dono de sua vida nem de seu futuro.

Tinha-nos ensinado a rezar ao “Pai”. Um Deus que ama e perdoa todos e todas por igual. Também conhecíamos seu amor por Marta e Maria quando as visita na sua casa e é recebido com muita hospitalidade. No seu caminho a Jerusalém, apresentando-se sempre como um peregrino, narrou à parábola conhecida como a “parábola do Bom Samaritano”. Deus convida-nos sempre a procurá-lo nos marginalizados, os que a sociedade desprecia e nem considera.
As palavras que iniciam o evangelho de hoje “Não tenha medo, pequeno rebanho, porque o Pai de vocês tem prazer em dar-lhes o Reino” são de um forte encorajamento e de muita confiança no Pai.
Convida-nos para que o Reino de Deus seja o centro de nossa preocupação. Para que isso seja possível deve existir uma convivência fraterna, onde não exista a acumulação, mas sim a partilha e a preocupação por nossos irmãos e irmãs, somos filhos/as de um Pai que ama a todos e todas por igual.
No Evangelho, Jesus se dirige aos/às discípulos/as como um pequeno rebanho e convida-o a não ter medo e confiar no Pai. O Pai confia plenamente neles a pesar das possíveis dúvidas ou incertezas e confia-lhes plenamente seu Reino.
Como rezamos no salmo: “Tu conheces o meu sentar e o meu levantar, de longe penetras o meu pensamento. Examinas o meu andar e o meu deitar, meus caminhos todos são familiares a ti. A palavra ainda não me chegou à língua, e tu, Senhor, a conheces inteira. Tu me envolves por detrás e pela frente, e sobre mim colocas a tua mão” (Sl 138, 2-5).
Podemos perguntar-nos: Qual é o medo que esse pequeno grupo pode ter? Por que, o pequeno rebanho tem medo?
Lembremos que no momento que o Evangelho foi redigido a Igreja nascente situava-se no meio do Império Romano. Eles sofriam perseguições, continuamente estavam expostos a serem rejeitados sob o peso das mentalidades socioculturais e religiosas desse Primeiro Século.
Deus conhece as dificuldades de seus filhos e filhas, não os abandona, mais ainda, continua apostando neles/as partilhando com eles/as sua íntima confiança e deposita em suas mãos a riqueza do seu Reino.
Desde nossa realidade podemos nos identificar com a comunidade primitiva, com suas dificuldades, medos e desafios. A Igreja hoje continua sendo um pequeno rebanho no meio de outros impérios que até fecham suas fronteiras deixando centenas de pessoas, mulheres, crianças e famílias inteiras num campo de refugiados.
Lembremos algumas palavras que o Papa Francisco dirigiu em uma vídeo-mensagem aos refugiados do Centro Astalli: “Perdoem o fechamento e a indiferença de nossas sociedades o que temem a mudança de vida e de mentalidade que sua presença exige. Cada um de vocês pode ser uma ponte que une povos distantes, que torna possível o encontro entre culturas e religiões diferentes, um caminho para voltar a descobrir nossa humanidade comum”.
Hoje esta realidade é um clamor à justiça, à igualdade e fundamentalmente a dignidade humana. Iluminados por estas palavras, Jesus convida-nos a acolher em nossas vidas e em nossas diferentes situações sócias culturais e religiosas o Reino que o Pai nos confia.
O Reino de Deus é um dom, é um presente que Deus Pai entrega aos que o amam. Mas Ele não se afasta da "obra de suas mãos", continua presente nela, sustentando-a com seu amor (Jo 5, 17).
Essa presença ativa de Deus no mundo, como o mesmo Jesus nos prometeu: “Eu estarei com vocês até o final dos tempos”, é a força e esperança do ‘pequeno rebanho’ que se estende até os cristãos do século XXI.
Diante de semelhante dom, qual é nossa resposta? Entregamos nossas vidas para colaborar com a obra de Deus neste mundo, com seu reino de justiça, solidariedade e alegria?
Para poder assumir como Jesus o compromisso do Reino, Lucas nos oferece no evangelho de hoje algumas dicas.
A primeira é nos lembrar de nossa condição de peregrinos, que já analisamos no evangelho do domingo é passado. Por isso usa a metáfora de nos “cingir” os rins, estamos a caminho.
É preciso levar sempre as lâmpadas acessas para ver assim os sinais da Presença de Deus neste mundo, mesmo na escuridão.
Por isso os/as cristãos/ãs temos que ser homens e mulheres de olhos abertos que pela luz do Senhor percebemos seus apelos, seu agir, sua dor, sua alegria, o que nos leva a ser ativos/as colaboradores/as da Obra de Deus em nosso tempo.
Somos pessoas de esperança. “Ele ou ela sabe que o Senhor virá. Não sabemos quando, não sabemos em que momento, mas Ele virá e Ele não deve encontrar-nos divididos. Ele deve encontrar-nos como Ele nos fez com o seu serviço: amigos vivendo em paz”. O cristão é um homem ou uma mulher que sabe esperar Jesus.
Jürgen Moltmann, na sua conferência proferida em Bergamo disse: “A esperança cristã não é, de fato, otimismo que promete às pessoas de sucesso dias melhores. A fé em Cristo difunde esperança onde de outro modo não há mais nada a esperar. Com os braços da esperança cristã abraçamos o mundo inteiro e não damos nada nem ninguém por perdido”.
Viver dessa maneira é ser vigilante. A vigilância é uma atitude bíblica, desde a noite da libertação do Egito, quando o anjo exterminador visitou as casas dos egípcios, enquanto os israelitas de pé, cajado na mão, celebravam Deus libertador, para depois continuar seu caminho de libertação.
Viver com os “olhos abertos” nos encoraja a denunciar tudo àquilo que “vemos” que é contra a vida e dignidade das pessoas e do meio no qual vivemos. Trabalhar para mexer e mudar as estruturas que são de morte... Conseguimos vê-las? Podemos nos perguntar também: somos cristãos de olhos fechados para não ver tudo àquilo que acontece ao nosso redor?
Lembremos as palavras do Papa Francisco na sua viagem a Lampedusa. Segundo ele “a cultura do bem-estar, que nos leva a pensar em nós mesmos, torna-nos insensíveis aos gritos dos outros, faz-nos viver como se fôssemos bolas de sabão: estas são bonitas, mas não são nada, são pura ilusão do fútil, do provisório”.

Esta cultura do bem-estar leva à indiferença a respeito dos outros; antes, leva à globalização da indiferença. Neste mundo da globalização, caímos na globalização da indiferença. Habituamo-nos ao sofrimento do outro, não nos diz respeito, não nos interessa, não é responsabilidade nossa!