Podcast Play Pequeno Monge Agostiniano – XV Domingo do Tempo Comum – Ano C

Liturgia da Palavra

Deuteronômio 30,10-14
Salmos 69 (68),14.17.30-31.33-34.36.37
Colossenses 1,15-20
Lucas 10,25-37




Um bom conselho vale mais que o ouro. Para os teólogos deuteronomistas (séc. VIII-VI a.c.), a Lei de Moisés era um inigualável tesouro de sabedoria, um rumo seguro para a vida, em todas as circunstâncias. Para tê-la sempre diante dos olhos, deviam colocá-la numa faixa, na testa (Dt 6,8; cf. Ex 13,9 etc.). Os deuteronomistas enfrentavam um tempo de afrouxamento em Israel, mais ou menos como nós, hoje. A quem achava as orientações de Deus, na Lei, bastante difíceis, o livro de Deuteronômio responde: “Não é verdade. A Lei não é coisa do outro mundo, ninguém a precisa procurar no céu ou no inferno” (1ª leitura). “Ela está perto de ti”. De fato, mais perto do que na faixa da testa, dificilmente poderia estar. Mas não é só naquela faixa que ela está perto. Ela é uma palavra viva, lembrada continuamente pelos próprios profetas, que viviam no meio do povo.

Um especialista da Lei, no tempo de Jesus, procurava, na multidão de prescrições, saber o que devia fazer para herdar a vida eterna, a vida da era vindoura, do Reino que Deus estabeleceria no mundo para sempre (pois é assim que se concebia a vida eterna) (evangelho). Jesus o remete à Lei ensinada por Moisés. Pergunta o que aí se encontra. O escriba responde: amar Deus acima de tudo, e o próximo como a si mesmo. “É isso mesmo que deves fazer”, responde Jesus. Novamente: não é coisa de outro mundo!
Mas o especialista da Lei é também especialista em subterfúgios. “Quem é meu próximo?” Todos nós estamos de acordo que devemos amar nosso próximo. Mas quem é ele? Minha velha tia rica, prestes a ceder sua herança, ou meu empregado, com cuja família nada tenho a ver?
Como argumentar não adiante, Jesus conta uma história. Um homem cai em mãos de ladrões. Passa um sacerdote, mas não tem tempo para parar, pois deve celebrar um sacrifício. Passa um especialista das leis de pureza (um levita); este tem medo de sujar as mãos com o sangue do homem que ficou semimorto na beira da estrada. Passa, depois, um inimigo, um samaritano, talvez um concorrente do homem que foi assaltado. E este cuida do homem às suas próprias custas. E agora, Jesus pergunta não mais quem é o próximo a quem se devem fazer obras caritativas, mas quem é o próximo do homem que foi assaltado. A inversão da pergunta é significativa, porque o especialista da Lei é obrigado a responder que um vil samaritano é próximo de um judeu assaltado. Para todos nós, isso significa: eu sou próximo de quem eu encontro no meu caminho, chamado à solidariedade com ele.
Ao analisar-mos o texto, mostram-se detalhes mais significativos ainda. O samaritano “comiserou-se”, “aproximou-se”; uma linguagem que poderia ser aplicada ao próprio Deus. Deus comiserou-se do homem e tornou-se seu próximo, e salvou-o às suas próprias custas: custou a vida de seu Filho. O próximo, “aquele que comiserou do homem” (Lc 10,37), é Deus mesmo. “Vai e então não precisarás mais perguntar quem é teu próximo e terás a vida eterna, porque desde já estarás vivendo a vida de Deus mesmo”.
Gostamos muito de escolher nossos próximos. Está errado. Somos próximos de quem encontramos; e este, então, é automaticamente nosso próximo também. Talvez ele pertença a um mundo bem diferente do nosso, mas é nosso próximo, porque nós fomos colocados perto dele.
A 2ª leitura é uma das obras-primas do N.T. A ideia principal é a unidade da ordem da criação e da redenção, em Cristo. Cristo é a cabeça da redenção, assumindo a todos na sua glória, porque ele é também a cabeça da criação. O hino de Cl 1,15-20 expressa isso em termos que lembram firmemente o prólogo de João e os textos que falam da Sabedoria como hipóstase unida a Deus desde antes da criação do mundo (Prov 8; Eclo 24; Sb 7). A figura da Sabedoria que preside à criação, identificada com Cristo, é combinada com a imagem paulina de Cristo, cabeça da Igreja, que é seu corpo. No pensamento bíblico, todo o corpo participa da realidade de seu princípio vital (no caso, a cabeça). No sacrifício e na glória de Cristo, assumem-se todo o universo na reconciliação com Deus. A “plenitude” (termo helenístico-gnóstico, indicando o “uno”, ou seja, o ser perfeito) mora nele: a plenitude de Deus, englobando todos os seus filhos.

Para refletir: Santo Agostinho nos faz refletir sobre esta parábola. Quem está jogado e espancado na beira do caminho é toda a humanidade. Os três grandes inimigos do homem – o mundo, o demônio e as nossas paixões – são os que nos deixam meio mortos. Cristo é o Bom Samaritano que desce do céu e se aproximou de nós, colocando em nós o balsamo dos seus sacramentos, levando-nos à hospedagem da Igreja e pagando com o seu sangue o preço que exigiam tantos cuidados. Em qual personagem nos refletimos: sacerdote levita ou samaritano?