Podcast Play Pequeno Monge Agostiniano – XVI Domingo do Tempo Comum – Ano C

Liturgia da Palavra

Gênesis 18, 1-10a
Salmos 15(14), 2-3. 3-4. 5
Colossenses 1, 24-28
Lucas 10, 38-42




Algum domingo atrás se leu o texto do Evangelho de Lucas quando Jesus toma a firme decisão de ir a Jerusalém e continuar ensinando às pessoas que estão junto dele o que significa serem seus discípulos e discípulas.
Junto deles caminhamos com Jesus e recebemos a novidade de sua mensagem. No domingo passado Jesus narra à parábola do samaritano respondendo à pergunta do levita “quem é meu próximo?”.
Hoje acompanhamos Jesus, que está hospedado na casa de duas amigas, Marta e Maria, que o recebem com grande carinho e esmero.

Ao longo da história este texto foi lido como se houvesse uma oposição entre a vida ativa e a vida dedicada à oração. Mas isso hoje não tem fundamentação e podemos ter outra leitura.
Num primeiro momento apreciamos que Lucas continua priorizando a relação de Jesus com as mulheres. Não podemos esquecer que para um judeu a mulher era impura e por isso um homem que deseja ser fiel ao ritual não deve deixar-se tocar por mulher e menos ainda hospedar-se na casa de duas mulheres.
Mas Jesus tem uma relação de amizade com estas duas irmãs e, através das diferentes reações de cada uma delas na sua relação com ele, continuam ensinando-nos como crescer como discípulos/as.
A hospitalidade é, sem dúvida, uma característica muito desenvolvida na cultura oriental. Já no livro do Gênesis, relata-se a hospitalidade generosa que oferecem Abraão e Sara aos três peregrinos perto do carvalho de Mam ré (18,1-10). Hospitalidade que é recompensada com o cumprimento da promessa de um filho na velhice.
Marta e Maria acolhem Jesus na sua casa, abrem as portas de sua vida para que ele entre e fique com elas. Pensamos nos refugiados que saíram de seus países procurando um destino melhor e atravessando situações de morte, mas eles procuram alguém que os receba, que os acolha.
Como disse Claudio Monge: “Um Ocidente anestesiado na sua capacidade de hospitalidade. Depois de termos experimentado tantos paradigmas de diálogo, parece que a perspectiva da hospitalidade pode nos levar mais longe. Hoje se diz que vivemos uma crise de diálogo porque as identidades são muito fortes e por isso se conflituam; mas para mim é o contrário, as identidades são muito fracas, por isso se combatem ou se fecham em si próprias. Não há acolhimento se não houver identidade, porque a hospitalidade acolhe o estrangeiro, sem fazê-lo entrar em ‘sua tenda’, como Abraão, sem querer englobá-lo dentro da própria identidade, mas respeitando sua alteridade. É isso que mantém em pé o diálogo”.
Podemos refletir sobre nossa capacidade de acolhida e hospitalidade. Como a praticamos? Numa cultura de tanta solidão e isolamento nossas comunidades, casas, nossas pessoas são acolhedoras dos peregrinos, visitantes, estrangeiros?
Voltando ao nosso texto do Evangelho, apreciamos o carinho de Jesus por Marta e Maria, gosta de estar com elas, sente-se à vontade na sua companhia. As duas são suas amigas, suas discípulas.
O que é diferente é a atitude que as irmãs têm em referência a Jesus, e ali está talvez a intenção do evangelista de mostrar um itinerário de crescimento para os/as discípulos/as de Jesus.
Maria, transgredindo os prejuízos culturais e religiosos, fica sentada aos pés de Jesus como uma verdadeira discípula na escuta do seu Mestre. Escuta sua Palavra, dialoga com Ele.
Mas Marta o recebe tentando preparar tudo para seu convidado; ela o acolhe como mulher de sua época. O diálogo que ela tem com Jesus mostra uma grande confiança, apresenta-lhe sua queixa sobre sua irmã, que está deixando-a sozinha com todas as tarefas.
E Jesus responde-lhe de uma forma inesperada: “Marta, Marta! Você se preocupa e anda agitada com muitas coisas; porém, uma só coisa é necessária, Maria escolheu a melhor parte, e esta não lhe será tirada”.
Marta está agitada e preocupada com muitas coisas porque somente uma coisa é importante!
Se olharmos para nossa vida, sem dúvida descobriremos que muitas vezes ficamos preocupados e agitados como Marta por tantas coisas, situações que consideramos importantes e esquecemos aquilo que é importante.
Alguns exegetas relacionam a atitude de Marta “agoniada por tantas coisas” com as exigências que gerava a Lei dos judeus que os fazia esquecerem-se do próximo, como lemos na semana passada, daquele/a que estava ao seu lado.
Jesus a chama: "Marta, Marta...". E ao colocar o nome de Marta duas vezes, Jesus está também fazendo alusão ao estilo que no Primeiro Testamento se usava para narrar o chamado de Deus.
Ele está convidando Marta a segui-lo de outra forma, mais livre, sem tanta normativa, e crescer assim como discípula dele.
Mas para isso deve abandonar o antigo cumprimento da Lei e receber a Boa Nova com toda sua novidade e originalidade. No caso de Marta, passar a ser uma mulher livre de prejuízos e preconceitos, assumindo, assim, também ela sua dignidade de discípula de Jesus.
Cabe perguntar-nos de onde tira força Maria para protagonizar esta mudança cultural e religiosa, e assim sem mais se colocar aos pés de Jesus?
Jesus disse a Marta: “Maria escolheu a melhor parte”, escolheu estar com ele, colocar Jesus no centro de sua vida. Mas para poder fazer isso, antes esta mulher conheceu profundamente o amor de Jesus por ela.
Esse amor lhe deu forças para deixar de lado tudo àquilo que não a ajudasse a crescer na amizade com Jesus. Por isso vemo-la aos pés do Mestre, acolhendo ternamente seu olhar, seguindo com seus olhos os gestos de Jesus, escutando e guardando cada uma de suas palavras.
Aí está o segredo do/a discípulo/a de Jesus, cativados/as por Ele. Buscamos acolhê-lo para conhecê-lo e viver como ele viveu!

Qual é nossa resposta, ou atitude diante da presença e convite de Jesus?