Podcats Play Pequeno Monge Agostiniano – Tema da Solenidade da Ascensão do Senhor

Liturgia da Palavra

Atos dos Apóstolos 1,1-11
Salmos 47(46), 2-3. 6-9
Efésios 1, 17-23
Lucas 24, 46-53

I – A missão de transmitir o intransmissível…
O Papa São Pio X, mesmo em meio às inúmeras ocupações inerentes à sua condição de Pastor Universal da Santa Igreja, empenhava-se em dar aulas de catecismo, todas as semanas, a crianças das paróquias de Roma que se preparavam para a Primeira Comunhão, das quais participavam também incontáveis fiéis. 1 E afirmava algo impressionante: para lecionar uma hora de catecismo são necessárias duas de estudo. De modo análogo, um bom pregador, incumbido de dirigir exercícios espirituais pelo período de cinco dias, precisa dedicar cerca de quinze para organizá-los, selecionar matéria adequada e se adaptar à psicologia do público, a fim de obter os frutos desejados. Idêntico processo compete a professores, conferencistas e todos os que têm a missão de ensinar, dado que o princípio geral é invariável: sempre que nos cabe formar outros, devemos aprender muito além do que vamos transmitir e nos embebermos de seu conteúdo.

Foi o que sucedeu aos Apóstolos: Deus os escolheu para serem testemunhas e difusores do Evangelho no mundo inteiro, e para isso era indispensável que se tornassem profundos conhecedores de tudo quanto haviam sido chamados a comunicar. No entanto, o que escreveram ou disseram era uma porcentagem ínfima em comparação com o que viram e viveram.

O fogo do Apóstolo: fruto da experiência mística
Exemplo cogente disto é a figura de São Paulo. De onde hauriu ele tudo quanto declara em suas densas cartas? Em primeiro lugar, recebeu uma graça de conversão — aquela que produz os efeitos para o que foi criada (cf. At 9, 1‑19; 22, 4‑16; 26, 10‑18; Gal 1, 13‑17). Ia ele capturar cristãos na região de Damasco quando, ainda a caminho, Nosso Senhor o fez “cair do cavalo” e perguntou: “‘Saulo, Saulo, por que Me persegues?’. Saulo disse: ‘Quem és, Senhor?’. Respondeu Ele: ‘Eu sou Jesus, a quem tu persegues. Duro te é recalcitrar contra o aguilhão’. Então, trêmulo e atônito, disse ele: ‘Senhor, que queres que eu faça?’” (At 9, 4‑6). Nesta hora foi-lhe concedido o dom da fé, para crer na voz que o interpelava; caso contrário, teria se levantado arrogante, desafiando a Deus.
A partir daí, o Divino Mestre trabalhou a fundo sua alma e começou a prepará-lo para ser o propagador do Evangelho por excelência. O retiro feito por ele no deserto da Arábia (cf. Gal 1, 17‑18) teve enorme papel nesta transformação, pois ao longo deste período, segundo revelações particulares, gozou da companhia do Homem-Deus em Corpo glorioso.
E quiçá mais assinalável tenha sido o êxtase no qual São Paulo, sendo arrebatado ao terceiro Céu, “ouviu palavras inefáveis, que não é permitido a um homem repetir” (II Cor 12, 4). Tais prerrogativas levaram-no a empreender um anúncio da Boa-nova mais eficaz que o dos Doze (cf. I Cor 15, 10). Poderíamos comparar a pregação do Apóstolo à situação de alguém que fosse contar às pessoas de uma civilização hipotética existente debaixo da terra o que se passa à luz do Sol. Neste caso talvez houvesse certa proporção entre um mundo e outro, mas o que foi dado a São Paulo vislumbrar está tão acima daquilo que conhecemos, que ele apenas conseguiu dizer: “os olhos não viram, nem os ouvidos ouviram, nem o coração humano imaginou, tais são os bens que Deus tem preparado para aqueles que O amam” (I Cor 2, 9).
Semelhante dificuldade enfrentam os que, contemplados com graças místicas que lhes fazem sentir em seu interior quem é Deus, não encontram termos adequados no vocabulário humano para explicar sua experiência: “A razão humana desfalece ante tão incompreensíveis mistérios, mas os corações iluminados sentem e experimentam, já nesta vida, tal realidade inefável que não pode caber em palavras nem em conceitos e, menos ainda, em sistemas humanos. O que estas almas conseguem balbuciar desconcerta as nossas débeis apreciações: elas multiplicam os termos que parecem mais exagerados, sem ainda estar satisfeitas com isso, pois sempre veem que ficam aquém, que a realidade é incomparavelmente maior de quanto possa ser dito”. 2
O segredo da profundidade dos escritos paulinos
A Epístola aos Efésios — da qual a Liturgia recolhe um trecho para uma das opções de segunda leitura (Ef 1, 17‑23) — é ilustrativa neste sentido. Mais que uma missiva, ela é quase um tratado no qual São Paulo se empenha em transmitir o que lhe foi manifestado a respeito de Nosso Senhor e da glória eterna que nos está reservada. Suas afirmações demonstram de sobejo que ele viu mais do que aquilo que escreveu: “O Deus de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai a quem pertence à glória, vos dê um espírito de sabedoria que vo-Lo revele e faça verdadeiramente conhecer” (Ef 1, 17). São Paulo deseja instruir sobre algo, que a tal ponto foge aos interesses humanos, materiais e imediatos, que sem o espírito da sabedoria de Deus não pode ser assimilado. Afinal, como é possível discorrer sobre o que ninguém vê? De que maneira tratar de uma realidade acima de toda e qualquer cogitação humana? Como falar daquilo que depende de um fenômeno místico? Para entender é preciso uma revelação vinda do Céu, e é a isto que ele se refere, como indica a construção de sua frase em grego: “os dois genitivos ‘de sabedoria e de revelação’ […], dependentes do substantivo ‘espírito’, se complementam mutuamente e aqui significam um conhecimento íntimo e profundo de Deus e de seus planos de salvação, ao qual o homem, por suas próprias forças, não pode chegar”. 3 Por este motivo insiste, pedindo a Nosso Senhor que “abra o vosso coração à sua luz para que saibais qual é a esperança que o seu chamamento vos dá, qual a riqueza da glória que está na vossa herança com os Santos” (Ef 1, 18).

Nossa esperança se fundamenta no poder de Deus
A esperança! Esta virtude teologal nos faz possuir, por antecipação, as maravilhas inimagináveis que receberemos em plenitude no fim do estado de prova e para as quais o Apóstolo aponta em sua carta.
Deus nos predestinou à salvação desde toda a eternidade e, antes mesmo de sermos criados, já havia determinado a via de santificação de cada um, antegozando o momento em que nasceríamos e começaríamos a trilhá-la. Alimentando nossa esperança em meio às dores da vida, Ele age conosco como alguém que, tendo construído um palácio para nós em local de difícil acesso, nos conduz a ele por um caminho no meio de um matagal, cheio de espinheiros e charcos próprios a causar apreensão. E anseia por nos levar quanto antes até uma clareira de onde possa mostrar, à distância, o edifício, a fim de nos encorajar a continuar o caminho.
Mais adiante, menciona São Paulo o “imenso poder que Ele exerceu em favor de nós que cremos, de acordo com sua ação e força onipotente” (Ef 1, 19). Com efeito, se a salvação estivesse sujeita aos nossos esforços nós não iríamos para o Céu, como mostra o episódio do moço rico que, ao ser chamado por Nosso Senhor, negou-se a abandonar tudo para segui-Lo, o que levou Jesus a dizer: “É mais fácil passar o camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar o rico no Reino de Deus” (Mc 10, 25). A afirmação surpreendeu os Apóstolos, que “se admiravam, dizendo a si próprios: ‘Quem pode então salvar-se?’. Olhando Jesus para eles, disse: ‘Aos homens isso é impossível, mas não a Deus; pois a Deus tudo é possível’” (Mc 10, 26‑27). Sim, graças ao seu poder progredimos nas veredas da perfeição e, sobretudo, perseveramos até o término de nossa peregrinação terrena. Eis a principal razão que deve nos mover a depositar n’Ele toda a nossa esperança. Entretanto, haverá alguma garantia de que ela será recompensada?

A Ascensão de Jesus é fonte de esperança
São Paulo responde a esta questão nos versículos seguintes, aludindo ao acontecimento grandioso comemorado nesta Solenidade: Deus “manifestou sua força em Cristo, quando O ressuscitou dos mortos e O fez sentar-Se à sua direita nos Céus, bem acima de toda a autoridade, poder, potência, soberania o qualquer título que se possa nomear não somente neste mundo, mas ainda no mundo futuro” (Ef 1, 20‑21).
Com a Ascensão, magnífico mistério de nossa Fé recordado num dos artigos do Credo — “subiu aos Céus e está sentado à direita do Pai” —, Nosso Senhor Jesus Cristo passou a ocupar seu lugar à destra do Pai como Homem, pois enquanto Deus já Se encontrava junto d’Ele desde toda a eternidade. 4 Tendo-Se unido à natureza humana pela Encarnação, desejava que esta natureza, por Ele representada, fosse introduzida na glória. Até então ninguém havia transposto os umbrais do Céu, inacessível aos homens em consequência do pecado original; só Deus Pai, Deus Filho, Deus Espírito Santo e seus Anjos lá habitavam. As almas dos justos permaneciam no Limbo à espera da Redenção e ali mesmo gozaram da visão beatífica, ao serem visitados por Nosso Senhor no instante de sua Morte. 5 Mas só quando Jesus ascendeu ao Céu estes eleitos lá penetraram, 6 preenchendo os lugares vazios deixados por Lúcifer e seus sequazes. Precedida por Nosso Senhor Jesus Cristo, aquela plêiade de almas santas entrou na glória, a começar por São José, seu pai adotivo, seguido por Adão e Eva, pelos profetas, patriarcas, mártires da Antiga Lei e uma milícia de homens e mulheres, constituindo “um povo tão numeroso entre esta raça justamente condenada, que vem ocupar a vacância deixada pelos anjos [decaídos]. E, assim, esta Cidade amada e soberana, longe de se ver defraudada no número de seus cidadãos, se regozija em reunir um número talvez maior”. 7
Sendo Jesus Cristo a “Cabeça da Igreja, que é o seu Corpo” (Ef 1, 22) — como declara o Apóstolo, com muita clareza e senso teológico —, e uma vez que o Corpo não pode subsistir destacado da Cabeça, nós, enquanto seus membros, também ingressaremos na Morada Celeste. 8 Sua Ascensão é para nós penhor de que seguiremos o mesmo caminho: no dia do Juízo Final retomaremos nosso corpo em estado glorioso e subiremos ao Céu, “ao encontro do Senhor nos ares” (I Tes 4, 17). A realização desta promessa é uma questão de tempo. No entanto, se o tempo existe para nós na vida presente e nos faz sentir a demora, ele desaparece depois da morte e, em face da eternidade, tal intervalo não significa nem sequer um “esfregar de olhos”. Seja este destino motivo de contentamento e entusiasmo para nós, conforme o pedido da Oração do Dia: “Fazei-nos exultar de alegria e fervorosa ação de graças, pois, membros de seu Corpo, somos chamados na esperança a participar da sua glória”. 9 

II – A Ascensão indica o nosso fim e os meios para alcançá-lo
Muitos seriam os aspectos dignos de análise na rica Liturgia desta Solenidade, mas fixemos a atenção em alguns deles ainda não comentados em outras ocasiões. 10 No trecho dos Atos dos Apóstolos escolhido para a primeira leitura (At 1, 1‑11), São Lucas, tendo já narrado a vida pública de Jesus em seu Evangelho, se dispõe a historiar o desenvolvimento da Igreja nascente, começando por alguns episódios ocorridos no período de quarenta dias que Jesus passou na Terra após a Ressurreição. De suas aparições restaram-nos os relatos feitos pelos evangelistas, entre estes os do próprio São Lucas; todavia, é certo que não foram as únicas, pois não seria razoável que Ele ressurgisse com tamanha glória e Se manifestasse apenas as escassas vezes consignadas na Escritura.
São conhecidas as narrações contidas em revelações particulares — às quais, apesar de não pertencerem ao depósito da Fé, se pode dar crédito, pois ilustram legitimamente a nossa piedade —, como as da Venerável Sóror Maria de Jesus de Ágreda ou as da Beata Ana Catarina Emmerick. 11 Segundo esta última, o Divino Mestre apareceu refulgente e silencioso a Simão de Cirene, que o merecia por tê-Lo ajudado a carregar a Cruz, e a diversas pessoas de Belém e Nazaré, com quem Ele ou sua Mãe Santíssima tiveram alguma proximidade. Jesus também esteve longo tempo com os Apóstolos, os discípulos e as Santas Mulheres — os quais se entristeciam por perceberem estar próximo o instante da separação —, para transmitir os derradeiros ensinamentos antes de partir.
De acordo com São Lucas, alguns Apóstolos perguntaram se havia chegado a hora da restauração do reino de Israel (cf. At 1, 6). Embora fossem testemunhas de um milagre portentoso como a Ressurreição, insistiam numa visão política e naturalista de Nosso Senhor, querendo saber se, por fim, veriam a conquista da supremacia do povo judeu sobre todos os outros. E Jesus respondeu: “Não vos cabe saber os tempos e os momentos que o Pai determinou com a sua própria autoridade. Mas recebereis o poder do Espírito Santo que descerá sobre vós” (At 1, 7‑8). Em seguida, elevou-Se à vista deles, provavelmente circundado de uma luz extraordinária.

E depois da Ascensão?
Imaginemos a alegria no Céu, a grande homenagem da Santíssima Trindade a Cristo-Homem e a todos os justos do Antigo Testamento que, pelos méritos infinitos da Paixão, entravam na Pátria Celeste. Enquanto as coortes angélicas se tomavam de júbilo, entoando cânticos, na Terra os discípulos mantinham os olhos fixos naquele ponto que ia desaparecendo, até que uma nuvem encobriu Nosso Senhor (cf. At 1, 9). Surgiram então dois Anjos, portadores de uma mensagem: “Homens da Galileia, por que ficais aqui, parados, olhando para o Céu? Esse Jesus que vos foi levado para o Céu virá do mesmo modo como O vistes partir para o Céu” (At 1, 11). promessa — “virá” — talvez lhes tenha dado ideia de que o retorno seria no dia seguinte ou dali a uma semana. Porém já se somam quase dois mil anos que Jesus Cristo subiu envolto em glória e ainda não regressou… Santo Agostinho explica como isso sucederá, no dia do Juízo: “‘Este Jesus virá como o haveis visto ir ao Céu’. O que significa virá como? Que será Juiz da mesma forma como foi julgado. Visível não só para os justos, visível também para os perversos, virá para ser visto por justos e malvados. Os maus poderão vê-Lo, mas não poderão reinar com Ele”. 12Nesta perspectiva, cabe-nos estar com a atenção centrada nos últimos acontecimentos de nossa vida — morte, juízo, inferno ou Paraíso —, conforme o conselho do Eclesiástico: “Em todas as tuas obras lembra-te dos teus Novíssimos, e nunca jamais pecarás” (7, 40).
Se hoje recebêssemos a notícia de que viajaremos para algum país distante dentro de um mês, passaríamos a organizar a partida com antecedência, tomando providências com relação ao vestuário, remédios, dinheiro, documentos… Contudo, a viagem que faremos é mais longa! Dela não voltaremos! Portanto, torna-se indispensável prepará-la de maneira adequada. Agimos como insensatos quando nos preocupamos tão só com os problemas concretos que terminam nesta vida e não nos interessamos em obter um bom lugar na outra. É normal que quem empreende viagem queira conhecer o hotel no qual se hospedará. Lembremo-nos, sem embargo, de que existe um alojamento eterno chamado inferno, muito mais incômodo que qualquer situação terrível pela qual possamos atravessar na Terra. Assim, ao contemplar a Ascensão de Jesus, tenhamos descortino de horizontes e procuremos merecer uma eternidade feliz, como admoesta o Papa Bento XVI: “Durante o ‘tempo intermediário’, requer-se dos cristãos, como atitude fundamental, a vigilância. Essa vigilância significa que o homem não se fecha no momento presente, entregando-se às coisas sensíveis, mas levanta o olhar para além do momentâneo e da sua urgência”. 13 Em consequência, abramos a alma aos últimos ensinamentos do Filho de Deus registrados por São Marcos e recolhidos pela Liturgia de hoje.

O que é evangelizar?
15b “Ide pelo mundo inteiro e anunciai o Evangelho a toda criatura!”
O que entendemos por “anunciai o Evangelho”? Sabemos que Nosso Senhor Jesus Cristo nada deixou escrito, nem sequer um bilhete, quando poderia ter redigido textos de extraordinário valor. Que seria a obra de um Dante Alighieri, um Camões ou um Calderón de la Barca perto de sua divina literatura? Nos Evangelhos consta que Ele só escreveu uma vez e sobre a areia (cf. Jo 8, 6.8), pois um de seus objetivos era constituir uma obra e, muito além de qualquer livro, ter modelos, tipos humanos para realizar uma ação direta, de pessoa a pessoa. Foi o que Ele fez: fundou a Igreja, instituição imortal que se baseia muito mais no apostolado pessoal e na ação de presença do que numa produção intelectual. É importante a doutrina, mas ela, de si, não é suficiente para converter as almas, porque “a letra mata, mas o Espírito vivifica” (II Cor 3, 6). Logo, ela precisa ser difundida “pelo mundo inteiro”, mediante o invólucro do Evangelho, isto é, os princípios tornados vida.
Mais ainda, São Marcos é o único dentre os evangelistas a afirmar que Nosso Senhor deu o mandato de levar a Boa-nova “a toda criatura”, o que abrange não só os homens, mas também os minerais, vegetais, animais e inclusive os Anjos. À primeira vista julgaríamos que o Evangelho se destina apenas aos seres humanos, pois como pregá-lo, por exemplo, a uma grade, a um panorama ou a um bando de aves? A universalidade do anúncio se prende a que tudo foi concebido em função do Homem-Deus. O Verbo é a causa eficiente, a causa exemplar e a causa final de toda a criação (cf. Col 1, 16‑17). D’Ele parte e para Ele tem de voltar-se sua obra. Deste modo, a nossa atuação, enquanto batizados, deve visar a disposição de todas as coisas tendo-O como centro. Pregar, então, o Evangelho a uma grade implica em fazê-la bela e ao mesmo tempo funcional, a fim de que dê glória a Deus pelo fato de existir. A beleza é um dos reflexos mais salientes e penetrantes da existência de Deus, e quem contempla algo esplendoroso facilmente se eleva até Ele. Para levar o Evangelho a toda criatura é necessário abraçar a via pulchritudinis, um dos meios mais eficazes de propagar as maravilhas trazidas ao mundo por Cristo. Isto significa sacralizar os gestos, o modo de se comportar ou de executar qualquer tarefa, desde cultivar a terra de maneira a obter frutos de aspecto atraente até erigir prédios de acordo com padrões inspirados no Evangelho. Numa palavra, é querer que a Terra se transforme num verdadeiro Paraíso.

Chamados a ser modelo para o próximo
A Solenidade da Ascensão nos coloca diante da responsabilidade recebida no dia do Batismo: a de sermos verdadeiros apóstolos, pois não somos criaturas independentes da ordem do universo, mas “fomos entregues em espetáculo ao mundo, aos Anjos e aos homens” (I Cor 4, 9). Vivemos em sociedade, num relacionamento constante com outras pessoas, com a nossa família e amigos, no ambiente de trabalho e onde nos movemos. Por isso, tanto no lar como numa comunidade religiosa, acompanha-nos a obrigação seríssima, sublime e grandiosa de sermos modelo para os outros. Cada um é chamado a representar algo de Deus que não cabe a nenhuma outra criatura, seja ela Anjo ou homem. Pregar o Evangelho não é só ensinar, é também dar bom exemplo, muito mais eloquente do que qualquer palavra. Na vida religiosa ou no seio da família, todos devem procurar vencer suas más inclinações e edificar o próximo, buscando sua santificação.
Assim como São Paulo desejava despertar nos efésios a esperança de um dia atingirem a glória, a Igreja, através da Liturgia, quer que sintamos no fundo da alma o que Deus preparou para gozarmos na eternidade, conquistado por Nosso Senhor Jesus Cristo no dia da Ascensão. De que valem as aflições terrenas sobre coisas transitórias? De que vale gozar os prazeres que o mundo pode oferecer? Acumular honras, aplausos, benefícios, e ao chegar a hora de partir deixar tudo, e apresentarmo-nos com as mãos vazias diante de Deus? Aproveitemos esta Solenidade para firmar o propósito de abandonar todo e qualquer apego ao pecado que nos afaste deste objetivo e nos tire “a esperança que o seu chamamento vos dá, […] a riqueza da glória que está na vossa herança com os Santos”. A este respeito, convém recordar o conselho de Santo Agostinho: “Pensa em Cristo sentado à direita do Pai; pensa que virá para julgar os vivos e os mortos. É o que indica a fé; a fé se radica na mente, a fé está nos alicerces do coração. Olha para quem morreu por ti; olha-O quando ascende e ama-O quando sofre; olha-O ascender e aferra-te a Ele em sua Morte. Tens uma garantia de tão grande promessa feita por Cristo: o que Ele fez hoje — a sua Ascensão — é uma promessa para ti. Devemos ter a esperança de que ressuscitaremos e ascenderemos ao Reino de Deus, e ali estaremos para sempre com Ele, numa vida sem fim, alegrando-nos sem nenhuma tristeza e vivendo sem qualquer enfermidade”. 14
Que a fé e a esperança alimentem a nossa alma no árduo caminho do cristão de nossos dias, e com esta chama sempre acesa enfrentaremos as adversidades. O mandato de evangelizar nos convida a subir misticamente com Nosso Senhor à Pátria Eterna, para onde iremos em corpo e alma depois da ressurreição. Peçamos por meio d’Aquela que foi assunta aos Céus, Maria Santíssima, que sejamos para lá conduzidos, celebrando exultantes este mistério.
1 Cf. DAL GAL, OFMCap, Girolamo. Beato Pio X, Papa. Padova: Il Messaggero di S. Antonio, 1951, p.402.
2 GONZÁLEZ ARINTERO, OP, Juan. Evolución mística. Salamanca: San Esteban, 1989, p.41-42.
3 TURRADO, Lorenzo. Biblia Comentada. Hechos de los Apóstoles y Epístolas paulinas. Madrid: BAC, 1965, v.VI, p.569.
4 Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. III, q.57, a.2.
5 Cf. Idem, q.52, a.4, ad 1; a.5, ad 3.
6 Cf. Idem, q.57, a.6.
7 SANTO AGOSTINHO. De Civitate Dei. L.XXII, c.1, n.2. In: Obras. Madrid: BAC, 1958, v.XVI-XVII, p.1627.
8 Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO, op. cit., q.57, a.6.
9 SOLENIDADE DA ASCENSÃO DO SENHOR. Oração do Dia. In: MISSAL ROMANO. Trad. Portuguesa da 2a. edição típica para o Brasil realizada e publicada pela CNBB com acréscimos aprovados pela Sé Apostólica. 9.ed. São Paulo: Paulus, 2004, p.313.
10 Para outros comentários acerca deste tema, ver: CLÁ DIAS, EP, João Scognamiglio. A Ascensão do Senhor. In: Arautos do Evangelho. São Paulo. N.65 (Maio, 2007); p.12-19; Comentário ao Evangelho da Solenidade da Ascensão – Anos A e C, respectivamente nos Volumes I e V da coleção O inédito sobre os Evangelhos.
11 Cf. MARIA DE JESUS DE ÁGREDA. Mística Ciudad de Dios. Vida de María. P.II, l.VI, c.28, n.1496. Madrid: Fareso, 1992, p.1088; BEATA ANA CATARINA EMMERICK. Visiones y revelaciones completas. Visiones del Antiguo Testamento. Visiones de la vida de Jesucristo y de su Madre Santísima. Buenos Aires: Guadalupe, 1954, t.IV, p.242.
12 SANTO AGOSTINHO. Sermo CCLXV/F, n.3. In: Obras. Madrid: BAC, 1983, v.XXIV, p.720.
13 BENTO XVI. Jesus de Nazaré. Da entrada em Jerusalém até a Ressurreição. São Paulo: Planeta, 2011, p.257.
14 SANTO AGOSTINHO. Sermo CCLXV/C, n.2. In: Obras, op. cit., v.XXIV, p.704.