Ambiente Virtual de Formação: Casa comum: Nossa Responsabilidade





Na quarta-feira de cinzas deu-se inicio a Quaresma, e iniciamos a Campanha da Fraternidade nesse ano de 2016. Desde 1964, motivada pelo Concílio Vaticano II, a Igreja escolhe para esse tempo litúrgico, um tema para ser refletido pelos cristãos, nas mais diversas comunidades brasileiras. Dentre as mais recentes, algumas têm sido elaboradas ecumenicamente por diversas Igrejas com o objetivo de unir forças para a superação de problemas que afetam a todos, especialmente os mais pobres, tais como a dignidade humana, a promoção da solidariedade e da paz, a economia. A Campanha da Fraternidade desse ano, que também é ecumênica (CFE), tem como tema: “Casa Comum: nossa responsabilidade” e como lema: “Quero ver o direito brotar como fonte e correr a justiça qual riacho que não seca”.  Ela abordará questões ligadas ao saneamento básico enquanto um direito humano fundamental de todos e sobre o cuidado com a criação. Sendo a quaresma um tempo penitencial, a Campanha da Fraternidade tem também a intenção de questionar como os cristãos têm sido testemunhas do Evangelho diante dos graves problemas de saneamento que atingem as nossas cidades.


O esforço ecumênico para promoção da vida revela que “aquilo que nos une é muito maior do aquilo que nos separa ou divide”, como afirmou São João XXIII. Os problemas sociais atingem a todos, e num mundo cada vez mais urbanizado, todos sofrem, ainda que indiretamente, as consequências do mal produzido. A questão do saneamento não é diferente, pois embora sejam os pobres os que mais sofrem, já que a falta de saneamento básico atinge primeiro os que estão próximos dela; mesmo os que possuem maior poder aquisitivo também são atingidos, como é o caso do lançamento de poluentes nos rios. Todos são prejudicados! De outro lado, numa economia globalizada, uma virose causada por água contaminada aumenta o fluxo de pacientes nos hospitais e compromete a economia. Nessa perspectiva, o cuidado com o saneamento básico, além de ser fruto de justiça social e ambiental, também pode ser visto em função de uma economia mais integradora e social.

O tema do Saneamento básico tem sido amplamente debatido em vários lugares do mundo e por vários grupos sociais, por estar ligado a questões de falta de politicas públicas que promovam desenvolvimento. Assim, não é por acaso que onde há pobreza, especialmente nas periferias do mundo, haja falta de saneamento básico. Trata-se, portanto, de uma economia neoliberal, sem coração, que se dá ao luxo de deixar de fora da economia mundial alguns países do mundo, como se deles não precisasse, deixando seus habitantes morrer por falta de comida, saneamento básico e doenças  endêmicas.  Por outro lado, as questões de saneamento estão diretamente ligadas à Ecologia, pois a sua falta traz sérios prejuízos à natureza, afetando os ecossistemas.

A Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento da ONU, tem insistido que não pode haver desenvolvimento sem a devida promoção social e sem a necessária proteção ao meio ambiente. Em 1992, a Cúpula da Terra, mais conhecida como o Eco 92, realizada no Rio de Janeiro, ao discutir sobre os graves problemas ambientais, lançou a Carta da Terra e a Agenda 21, um compromisso de todos os países participantes, na busca de soluções para os problemas socioambientais e a defesa da vida humana. Na mesma perspectiva, a XX Assembleia do Conselho Mundial de Igrejas realizada em 2013, na Coreia, na busca de uma ação conjunta das Igrejas lançou a “Peregrinação por Justiça e Paz”, com o intuito de conscientizar a sociedade sobre a ação destrutiva do atual modelo de desenvolvimento e a necessidade de sua superação.

Em dezembro de 2015, a ONU realizou a 21ª Conferência do Clima (COP 21), em Paris que teve por objetivo discutir e promover um novo acordo entre os países para diminuir a emissão de gases de efeito estufa, e assim diminuir o aquecimento global. O Acordo de Paris foi oficializado com  o compromisso de que todos os signatários se empenhem para que a temperatura global não supere  dois graus. As propostas da Conferência também sugerem o empenho na erradicação da pobreza, condição necessária para haver a paz, tal qual o Beato Paulo VI preconizou na Populorum Progressio. A garantia do saneamento básico para todos, além de ser uma questão de “justiça ambiental”, pois o meio ambiente deve ser cuidado e protegido, torna-se também uma questão de “justiça social”, uma vez que os pobres de Deus são sempre os que mais sofrem.

No âmbito católico, mostrando-se profundamente conectado com as discussões mundiais, o Papa Francisco lançou em 2015 a Encíclica Laudato Si, onde faz profunda ligação entre a Doutrina Social da Igreja e a Ecologia,  convidando todos os cristãos a se empenharem na missão de Evangelizar o mundo, testemunhando a fé na criação de Deus e no cuidado do Mundo. “Nessa perspectiva, a Campanha da Fraternidade está fortemente embasada na encíclica papal: Casa comum: Nossa Responsabilidade”. Em razão disso, o Conselho das Igrejas Cristãs (CONIC) assumiu o compromisso de preparar esta Campanha ecumênica, que já começamos a refletir em nossas comunidades.

A escolha do enfoque sobre Saneamento básico se justifica pelo fato de que, infelizmente, ele ainda não está presente em todas as cidades brasileiras e, em muitas outras, de forma bastante precária. Embora o Brasil tenha avançado em muitas frentes, ainda há falta de investimento econômico dos governos para que grandes partes dos brasileiros tenham assegurado esse direito básico. Assegurar a todos esse direito se constitui como o principal objetivo da CF e isso só será possível com a conscientização de todos.

Como de costume, a CF propõe que os cristãos assumam o compromisso quaresmal de dedicar alguns momentos de seu tempo, pessoal e/ou comunitariamente, para analisar a realidade em que vivemos,  e refleti-la  à luz da Palavra de Deus e do Magistério eclesial e, por fim assumir o compromisso de colaborar para que realidades de morte, ligadas às questões de saneamento básico, se transformem em realidades de vida. Todas essas ações serão fruto de uma profunda espiritualidade vivenciada nas celebrações próprias desse rico tempo litúrgico, no qual somos convidados a refletir sobre a nossa vida e o nosso compromisso cristão.

Por fim, o lema da CFE se encontra num versículo extraído tirado do livro do Profeta Amós 5,24: “Quero ver o direito brotar como fonte e correr a justiça qual riacho que não seca”. Trata-se de uma passagem bíblica que a Igreja nos propõe refletir, acerca do saneamento básico, na linha dos direitos fundamentais da pessoa, uma vez que a ausência desse serviço é nocivo à saúde, além de configurar um atentado contra a dignidade humana, a fim de  que assumamos a promoção da justiça e do direito como modelo de espiritualidade.

A invocação desse versículo tem a ver também com a dura realidade de nossas cidades, nas quais os bairros das populações mais abastadas são bem servidos de saneamento básico, enquanto que as periferias vivem uma profunda precariedade desse serviço, com falta d’água e esgoto a céu aberto. O riacho da justiça deve banhar não só os mais ricos, mas também aqueles que vivem em bairros modestos, possibilitando a todos beber da mesma fonte desse direito fundamental.

Deus fez o mundo perfeito e belo e o pecado humano está privando muitos de nossos irmãos de contemplar essa beleza. Essa dura realidade deve tocar o nosso coração para que testemunhemos que somos discípulos do Deus da vida, pois esta será a afirmação litúrgica que faremos no domingo de Páscoa: Jesus Cristo venceu a morte e está no meio de nós! No segundo século, Santo Irineu afirmou “A glória de Deus é o Homem vivo, e a vida do Homem consiste em ver a Deus” (Adversus Haereses IV, 20, 7, Ireneu de Lião). Empenhemos nossa vida para que Deus seja louvado e glorificado por toda a criação. Defendamos o direito ao saneamento básico a todos aqueles a quem Deus escolheu se manifestar.


Texto elaborado pela Equipe Ambiente Virtual de Formação, Arquidiocese de Campinas, SP.