Podcast Play Pequeno Monge Agostiniano – Tema do Natal do Senhor – Missa do Dia

Liturgia da Palavra:


Isaías 52, 7-10
Salmo 98, 1-6
Hebreus 1, 1-6
João 1, 1-18


Se, nas celebrações anteriores, o acento cai na humildade do Messias, na missa do dia é realçada sua eterna grandeza. As duas missas anteriores revelam uma cristologia da “Kenósis” (esvaziamento/despojamento), a do dia, uma cristologia da glória, do senhorio do Cristo, antecipada na preexistência antes dos séculos. Eis a economia da salvação: Jesus se despojou assumindo nossa condição humana para que nós participássemos de sua glória de Filho de Deus (oração do dia; o mesmo tema é lembrado diariamente na missa, ao misturar-se água ao vinho).


A liturgia expressa menos que a da noite a misteriosa transparência do divino na condição humilde do menino de Belém, mas proclama sua glória “sem véu”. “Teu Deus reina” soa agora o brado que lembra a volta dos exilados (canto da entrada). “Cantai ao Senhor um canto novo, pois ele fez maravilhas” (salmo responsorial).

O tema da manifestação da glória de Deus é acentuado pelo tema da Palavra (2ª leitura, evangelho). A cristologia da exaltação e da preexistência, em Hb e em Jo, está a serviço da manifestação de Deus (cf. tb. “todos verão”, na 1ª leitura). Aos que discutiam se Jesus devia ser contado entre os homens ou entre os anjos, o autor de Hb diz que ele supera a todos (Hb 1,4). O importante para nós sabermos é que Jesus mostra na sua existência terrestre o que o Céu nos quer comunicar: ele é a Palavra que está em Deus desde sempre – a Palavra definitiva, depois de tantas provisórias e incompletas que chegaram até nós através dos profetas.

Essa cristologia da Palavra preexistente é proclamada grandiosamente pelo prólogo do João (evangelho). “No princípio” (cf. Gn 1,1) era a Palavra (da criação, Gn 1,3 etc.), e esta Palavra é aquele que veio ao mundo, o qual a recusou (Jo 1,5.9-11). Tornou-se carne como a nossa, mortal como nós (Jo 1,14, cf. Hb 4,15), e exatamente nessa condição mortal – dando sua vida em amor até o fim – manifestou-se a glória de Deus em Jesus (Jo 1,14.16-18). Nessa carne manifestou-se o ser de Deus, que é amor (cf. Jo 3,16; 1Jo 4,8-9). Assim, o Deus invisível em sua glória se deu a conhecer (Jo 1,18). Tudo o que foi, é e será comunicação de Deus, Jesus o é, desde o começo. Ele é Deus (1,1-3).

A cristologia da preexistência garante que o que Jesus diz e faz, Deus é quem o diz e faz: “É o Pai que realiza em mim sua obra” (Jo 14,10); “Quem me viu, tem visto o Pai” (14,9). Nesse pensamento temos um eco de Pr 8,22-36 e de Eclo 24, que proclamam a obra da sabedoria de Deus no mundo. Não se trata de especulações sobre algum ser celestial que como um astronauta extraterrestre faz uma visitinha à terra! A obra de Deus por excelência, e na qual ele se mostra totalmente, é o que fez o homem verdadeiro e histórico Jesus de Nazaré em nosso meio. Refletindo assim, podemos superar o dualismo que coloca numa bem pequena parte de Jesus sua humanidade e valoriza quase só a parte maior que seria sua divindade (preexistência, onisciência)… O ser divino de Jesus não está à parte, mas está exatamente em seu ser carne. É isso que Jo 1,14 exprime de modo insuperável: a Palavra nasceu (como) carne, e nós contemplamos sua glória.

Sendo essa a dimensão cristológica desta liturgia, não devemos negligenciar sua mensagem a respeito de nós mesmos: pela encarnação do divino, nosso ser é divinizado (oração do dia) e chamado à vida sem fim (oração final). Portanto, com Cristo devemos viver nossa existência humana “assim como Deus a viveria”.

Até ao próximo...