Podcast Play Pequeno Monge Agostiniano – Tema do 4º Domingo do Advento – Ano C

Liturgia da Palavra:

Miqueias
 5, 1-4
Salmo 80, 2-3, 15-16, 18-19
Hebreus 5, 5-10
Lucas 1, 39-45 


Se, no domingo anterior, se podia dizer que os raios do Sol Iustitiæ já abrasavam o horizonte; na liturgia deste 4º Domingo do Advento, rodeada pelas antífonas do – “Ó”, se abrem as nuvens da madrugada. Irrompe em nossa humanidade, de modo indescritível e fascinante, a atuação definitiva do amor de Deus.

A oração do dia evoca todo o Mistério da Salvação, desde a anunciação do anjo a Maria até a Ressurreição do Cristo. O que celebramos no Natal não é apenas o nascimento de um menino, mas a irrupção da obra de Deus como realização definitiva da história humana.

Maria é a Mãe bendita do Senhor. Por sua fé, vivida em profundidade, ela é realmente modelo dos cristãos. Pela missão que recebeu de ser Mãe da humanidade, ela intercede para que o plano de Deus se realize em nossa vida. Esse é um plano de amor que – por meio do Filho encarnado, que assumiu a história com todas as suas contradições – traz a todos nós perdão, a comunhão com Deus. Cumpre-se, assim, a profecia de Miqueias acerca de um chefe que instaurará a paz.
Começamos o ano da misericórdia, convocado por Sua Santidade Francisco. E justamente neste ano meditaremos cada domingo no evangelho de São Lucas, o evangelho da misericórdia. Hoje temos o exemplo de caridade misericordiosa de Maria. O lugar da misericórdia de Maria para com a sua prima Isabel. Misericórdia feita detalhes de caridade, ternura, prontidão e serviço.
Em primeiro lugar, o translado entre danças e alegria da Arca da Aliança em tempos de Davi: presença de Deus cheio de misericórdia com o seu povo eleito! A Arca da Aliança é agora a Mãe do Messias: Deus continua derramando a sua misericórdia agora através de Maria! O encontro das duas mulheres que creem está cheio de simbolismo misericordioso: Maria leva no seu seio o Messias, o Deus da ternura e da misericórdia, e também Isabel vai ser mãe do Precursor. As duas estão cheias de alegria, as duas aceitaram o plano de Deus sobre as suas vidas e entoam para Ele os louvores, cantando a misericórdia divina. O encontro entre estas duas mulheres simples, representantes do Antigo e do Novo Testamento, é também o encontro entre o Messias e o seu precursor. É mais, entre Deus e a humanidade. Encontro carregado completamente de grande misericórdia. De Deus com a humanidade, simbolizada nessas duas mulheres, Maria e Isabel.
Em segundo lugar, vejamos os gestos de misericórdia de Maria neste evangelho da Visitação a sua prima Isabel. Quem deve semear em nós esta misericórdia? O Espírito Santo. O Espírito Santo é o amor do Pai e do Filho; amor feito ternura, detalhes, bondade, caridade, serviço... Maria sai apressadamente de Nazaré movida pelo Espírito Santo para ajudar a sua prima, pois a caridade misericordiosa madruga. Maria entra na casa da sua prima impulsionada pelo Espírito Santo e a saúda e abraça desejando-lhe a paz, “Shalom”, pois a caridade misericordiosa sempre deseja a paz para todos. Será o Espírito Santo quem fará pular de gozo João que estava no seio da sua mãe Isabel ao saber do fruto que Maria levava no seu ventre, Jesus cheio de misericórdia. Será o Espírito Santo quem fará exclamar Isabel: “Bendita és tu entre as mulheres”, pois a caridade misericordiosa sempre  reconhece as bênçãos de Deus para com os seus filhos, sem permitir-se levar arrastar pela inveja. Maria canta o Magnificat porque reconhece com humildade a misericórdia de Deus para com Ela. E Maria fica com Isabel três meses porque a misericórdia é generosa e se dá até o final sem medida alguma.
Finalmente, este ano tem que ser um ano permeado de misericórdia. Estas são as palavras do Papa Francisco: “Como desejo que os anos que estão por vir estejam impregnados de misericórdia para poder ir ao encontro de cada pessoa levando a bondade e a ternura de Deus! A todos, crentes e afastados, chegue o balsamo da misericórdia como sinal do Reino de Deus que está já presente no meio de nós” (Misericordiæ Vultus, n.5). E mais adiante na mesma bula de proclamação do ano santo diz isto: “É determinante para a Igreja e para a credibilidade do seu anúncio que ela viva e testemunhe em primeira pessoa a misericórdia. A sua linguagem e os seus gestos devem transmitir misericórdia para penetrar no coração das pessoas e motivá-las a reencontrar o caminho de volta ao Pai” (n.12). Como Maria manifestou a sua misericórdia com Isabel com gestos, assim também nós no nosso dia-a-dia, em casa, no trabalho, no colégio e universidade, na paróquia e na rua, no comércio, entre os amigos e vizinhos, e também para com aqueles com os que não simpatizamos naturalmente. Gestos de perdão, ternura, bondade, compreensão, consolo, serviço, atenção, ajuda... Continua o Papa: “Abramos os nossos olhos para olhar as misérias do mundo, as feridas de tantos irmãos e irmãs privados de dignidade, e sintamo-nos provocados a escutar o seu grito de auxílio. As nossas mãos estreitem as suas mãos, e aproximemo-nos a nós para que sintam o calor da nossa presença, da nossa amizade e da fraternidade. Que o seu grito se torne o nosso e juntos possamos quebrar a barreira da indiferença que reina por todos os lados para esconder a hipocrisia e o egoísmo” (n.15).
Para refletir: O meu coração está cheio de misericórdia para com todos os meus irmãos? Como vivo as 14 obras de misericórdia que a Igreja me ensinou no catecismo, n. 2447? Ali estão resumidas: dar de comer ao que tem fome, dar de beber ao que tem sede, dar hospedagem ao necessitado, vestir o nu, visitar o enfermo, socorrer os presos, enterrar os mortos (materiais). Ensinar o que não sabe dar bom conselho ao que necessita corrigir o que está no erro, perdoar as injurias, consolar o triste, sofrer com paciência os defeitos dos outros e pedir a Deus pelos vivos e pelos mortos (espirituais).
Preparamo-nos para celebrar o Natal e somos convidados como comunidade cristã a acreditar na Palavra de Deus como Palavra Criadora.

Podemos perguntar-nos onde está surgindo essa vida nova que o Espírito está gerando no nosso mundo hoje? Há muitas situações que no seu interior levam uma esperança de vida, onde o sofrimento e a injustiça não são aquilo que está triunfando.

É uma vida que se engendra em segredo e não é possível percebê-la de imediato. A Palavra é criadora e expande-se pelos rincões do mundo inteiro.

Só há uma condição: acreditar nela assim como Maria e comunicar sua alegre presença “depressa”, sem fronteiras.

Iniciamos o Ano da Misericórdia e como disse o Papa Francisco, “a misericórdia possui uma valência que ultrapassa as fronteiras da Igreja”.

Há muitas sementes de vida que florescem em silêncio, nos espaços de aparente desesperança.
Até o próximo...