Podcast Play Pequeno Monge Agostiniano – Tema do 29º Domingo do Tempo Comum – Ano B


A liturgia do 29º Domingo do Tempo Comum lembra-nos, mais uma vez, que a lógica de Deus é diferente da lógica do mundo. Convida-nos a prescindir dos nossos projetos pessoais de poder e de grandeza e a fazer da nossa vida um serviço aos irmãos. É no amor e na entrega de quem serve humildemente os irmãos que Deus oferece aos homens a vida eterna e verdadeira.


A primeira leitura apresenta-nos a figura de um “Servo de Deus”, insignificante e desprezado pelos homens, mas através do qual se revela a vida e a salvação de Deus. Lembra-nos que uma vida vivida na simplicidade, na humildade, no sacrifício, na entrega e no dom de si mesmo não é, aos olhos de Deus, uma vida maldita, perdida, fracassada; mas é uma vida fecunda e plenamente realizada, que trará libertação e esperança ao mundo e aos homens.

Na segunda leitura, o autor da Carta aos Hebreus fala-nos de um Deus que ama o homem com um amor sem limites e que, por isso, está disposto a assumir a fragilidade dos homens, a descer ao seu nível, a partilhar a sua condição. Ele não Se esconde atrás do seu poder e da sua omnipotência, mas aceita descer ao encontro dos homens para lhes oferecer o seu amor.

No Evangelho, Jesus convida os discípulos a não se deixarem manipular por sonhos pessoais de ambição, de grandeza, de poder e de domínio, mas a fazerem da sua vida um dom de amor e de serviço. Chamados a seguir o Filho do Homem “que não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida”, os discípulos devem dar testemunho de uma nova ordem e propor, com o seu exemplo, um mundo livre do poder que escraviza.

As comunidades cristãs primitivas enfrentaram, como acontece nas comunidades de hoje, diversos conflitos internos. Um deles referia-se à disputa de poder entre as lideranças. Competições, ciúme e inveja se manifestam também entre os cristãos. São manifestações que contradizem o ensinamento e a prática de Jesus. Por isso, um dos objetivos do Evangelho de Marcos é “voltar às fontes” originais da fé em Jesus Cristo. Seus autores procuram recuperar a memória de Jesus de Nazaré a fim de que os cristãos permaneçam fiéis ao seu projeto e não se deixem contaminar pela ideologia de poder. Já se passaram aproximadamente 40 anos após a morte e ressurreição de Jesus. A maioria das testemunhas oculares de Jesus histórico já morreu. A segunda geração de cristãos, diante dos novos desafios, necessita de orientações sólidas. Para isso, nada melhor do que ver e ouvir de novo o que Jesus fez e disse.

O Evangelho de Marcos concebe a viagem de Jesus com seus discípulos – da Galileia até Jerusalém (8,22-10,52) – como um caminho pedagógico. Nessa viagem, Jesus se preocupa, de maneira especial, em abrir os olhos dos discípulos para que compreendam que tipo de Messias ele é. Não basta confessar publicamente que Jesus é o Cristo, como fez Pedro em nome de todos (8,29). É necessário superar a ideia de que o Messias seria um líder poderoso prestes a manifestar domínio e glória. De fato, o episódio imediatamente anterior ao texto deste domingo revela que os discípulos carregam a pretensão de tirar proveito do poder que Jesus conquistaria ao entrar na capital. Tiago e João lhe pedem encarecidamente que sejam distinguidos dos demais e possam sentar um à direita e outro à esquerda de Jesus em sua glória. Os demais discípulos ficam indignados com os dois, numa demonstração de divisão interna pela disputa de poder. Jesus os chama e, com paciência e misericórdia, mostra as atitudes que devem ser renunciadas e as que devem ser praticadas pelos seus verdadeiros seguidores.

Há um jeito de ser que caracteriza os cristãos, totalmente diferente do adotado pelos grandes e importantes deste mundo: enquanto estes dominam as nações, os discípulos devem fazer o contrário: “Aquele que quiser ser grande seja o vosso servidor, e aquele que quiser ser o primeiro dentre vós seja o servo de todos”. Os critérios de Jesus subvertem os valores apregoados pela ideologia oficial. Seus critérios são os do reino de Deus. Somente pelo serviço abnegado de uns aos outros é que se estabelecem as relações sociais de justiça, paz e fraternidade.

Os discípulos ainda não conseguem captar o sentido das palavras de Jesus. Não conseguem imaginar um Messias sem honra e sem privilégios. Como poderiam seguir um sujeito que escolhe ser servo quando poderia ser rei? Jesus não desiste: nessa caminhada pedagógica, anuncia por três vezes que o Messias deverá sofrer e ser morto; adverte-os de que, para segui-lo, é necessário carregar a cruz. Seus ensinamentos são autenticados pelo testemunho concreto de sua vida: “O Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos”. Constata-se aqui íntima relação com o “servo sofredor” do profeta Isaías Segundo, conforme a primeira leitura da liturgia deste domingo. Jesus assume sua missão de fidelidade ao plano de salvação de Deus, entregando livremente sua vida. Abandonado e desprezado até pelos seus discípulos, doa-se por inteiro como vítima expiatória. Ele nos resgatou da morte para a vida.

As comunidades de Marcos e as comunidades de hoje são convidadas a analisar suas relações internas à luz do ensinamento e do testemunho de Jesus. Não há argumentos que possam justificar atitudes de superioridade de uns sobre os outros. As funções ou cargos necessários para dinamizar a evangelização não podem ser usados para benefícios e privilégios pessoais. No seguimento de Jesus não há lugar para “grandes”, e sim para ––“servidores”; não há lugar para “primeiros”, e sim para “servos de todos”.


Até o próximo: A Leitura Cristã da Bíblia – Catequese Bíblico Missionária.