Podcast Play Pequeno Monge Agostiniano – Tema do 25º Domingo do Tempo Comum – Ano B



As leituras deste terceiro domingo do mês dedicado à Bíblia refletem sobre duas diferentes lógicas pelas quais o ser humano pode conduzir a sua vida: a do ímpio e a do justo. O livro da Sabedoria informa que a lógica do ímpio desconsidera a vontade de Deus a fim de usufruir o tempo presente e os bens deste mundo, buscando satisfazer seus desejos egoísticos. Não se importa com o próximo necessitado e contrapõe-se ao modo de pensar e de agir da pessoa justa, caluniando-a, perseguindo-a e matando-a. Diferente é a lógica do justo: ele leva em máxima conta o conhecimento de Deus, segue sua vontade e se gloria de tê-lo por pai (I leitura). O evangelho chama a atenção: a lógica do ímpio pode contaminar os próprios discípulos de Jesus. Ela se manifesta na atitude de disputa de poder entre eles, contrariando os ensinamentos e a prática de Jesus: “Se alguém quiser ser o primeiro, seja o último de todos e o servo de todos”. A carta de Tiago (II leitura) adverte que “onde há inveja e preocupação egoística, aí estão as desordens e toda sorte de más ações”. E orienta para o modo verdadeiro de conduzir a vida: conforme a sabedoria que vem de Deus.

O livro da Sabedoria é resultado da reflexão dos judeus da diáspora. Foi escrito em grego, na cidade de Alexandria, no Egito, pelo ano 50 a.C. O texto reflete a situação do povo judeu, fora de sua pátria, incompreendido e hostilizado por causa da fidelidade às suas leis. Os autores concebem dois tipos de pessoas: os justos que conhecem a Deus e os injustos ou ímpios que, além de não o conhecerem, zombam de quem lhe é fiel.


Para além da relação conflituosa entre os judeus e os estrangeiros, o texto nos inspira a refletir sobre os efeitos que a prática da justiça pode causar. O modo de pensar e de se comportar das pessoas justas incomoda os injustos. Ao ler todo o capítulo 2 do livro da Sabedoria, percebemos que os justos estão convencidos de que Deus recompensará a quem segue o caminho de santidade. Sentem-se protegidos por Deus e gloriam-se de tê-lo por pai. Os ímpios, ao contrário, concebem a vida – já que é passageira – como uma oportunidade de satisfazer os instintos egoísticos. Oprimem o pobre e agem com prepotência, a ponto de pôr à prova a fidelidade dos justos por meio de calúnias, perseguições e até de condenação à morte. Nesse sentido, o texto chega a ser uma prefiguração de Jesus Cristo.

Jesus encontra-se a caminho de Jerusalém, onde será condenado à morte. Os discípulos ainda não compreendem que tipo de Messias ele é. Para eles, está sendo muito difícil mudar de mentalidade. O Evangelho de Marcos mostra que esse caminho para Jerusalém indica o processo de formação pelo qual os discípulos devem passar. O próprio Jesus é o formador. Com paciência e dedicação, procura abrir os olhos dos discípulos para que o reconheçam como o servo de Deus e não como um rei poderoso.

Por três vezes Jesus anuncia que vai a Jerusalém, onde deverá sofrer e morrer. O texto deste domingo refere-se ao segundo anúncio. O primeiro anúncio foi objeto de nossa reflexão no domingo passado. Em cada um dos anúncios há uma reação dos discípulos, demonstrando que não estão entendendo o ensinamento de Jesus. E estão com medo de perguntar. Talvez estejam lembrando a forte repreensão de Jesus a Pedro, quando o chamou de “satanás” por tentar impedi-lo de cumprir sua missão até o fim. Eles têm medo das exigências de Jesus. Persistem na sua ambição de poder. Seguem Jesus discutindo quem seria o maior entre eles. Essa aspiração à grandeza e ao prestígio popular era bem evidente entre os líderes religiosos e entre os políticos. Vestiam-se e comportavam-se na sociedade de modo que chamassem a atenção sobre si; buscavam sempre os primeiros lugares… Jesus já havia chamado a atenção dos discípulos: “Cuidado! Guardai-vos do fermento dos fariseus e do fermento de Herodes” (Mc 8,15). Mas parece que não adiantou. Em vez de seguir o exemplo de Jesus, seguem a ideologia dos poderosos. Em vez de serem servos uns dos outros, preferem disputar entre si.

O momento é propício para uma instrução especial. Ao passar por Cafarnaum, Jesus entra na casa e, após perguntar aos discípulos o que estavam discutindo pelo caminho, senta-se. É a posição de mestre. Essa casa de Jesus representa as comunidades cristãs no tempo em que Marcos está escrevendo. Também essas comunidades são identificadas como “o caminho”. Ao ressuscitar, Jesus permanece no meio delas, caminhando junto e ensinando-as por meio do seu evangelho.

Jesus está na casa. Chama os doze para junto de si. Não porque estejam distantes fisicamente, mas porque estão resistindo a segui-lo verdadeiramente. Por isso, o ensinamento que ele vai ministrar-lhes agora é de muita importância: “Se alguém quiser ser o primeiro, seja o último de todos e o servo de todos”. E para que não esquecessem jamais essa lição, ilustra seu ensinamento, tomando uma criança e colocando-a no meio. Mais uma vez, Jesus revela a sua relação de carinho e de solidariedade com os pequeninos, os desprezados e os marginalizados. A criança representa aqui todas as pessoas necessitadas que devem ser amadas, acolhidas, cuidadas e protegidas pelas comunidades cristãs em nome de Jesus. Para agir desse modo, é necessário que cada cristão abandone as aspirações de “ser o maior” e torne-se “servidor” dos pequeninos. Na criança, tudo é gratuidade. Assim, quem ama os pequeninos está amando o próprio Jesus e também o Pai, que o enviou.

Nas comunidades cristãs primitivas, como também nas de nossos dias, existem atitudes contrárias ao ensinamento de Jesus. Não foram somente os doze apóstolos que demonstraram muita dificuldade de entender e de seguir Jesus. Por meio desse texto da carta de Tiago, percebemos que também no meio dos cristãos do final do primeiro século havia “inveja e preocupação egoística”. As consequências disso, conforme escreve Tiago, são as “desordens e toda espécie de más ações”: lutas, guerras, cobiça, avidez…

Tiago tem consciência de que isso não pode acontecer com quem se declara seguidor de Jesus. Percebe que essas atitudes são próprias de gente insensata que atrapalha a missão da Igreja neste mundo: anunciar o evangelho não só por palavras, mas também pelo testemunho de amor mútuo. Como podemos sonhar com um mundo fraterno se, entre os próprios cristãos, existem divisões, inveja e busca de prestígio pessoal, até sob a capa de piedade?

Diante dessas coisas, Tiago adverte os cristãos de que devem orientar sua vida conforme a “sabedoria que vem do alto”. E esclarece como ela se manifesta: é pura, isto é, não contaminada com a ideologia do poder; é pacífica: alimenta-se da paz que vem de Deus e não promove divisões; é indulgente: relaciona-se com educação e respeito com o próximo; é conciliadora: não age com orgulho ou imposição, mas promove a união entre as pessoas; é cheia de misericórdia: acolhe e ama o outro, buscando o seu bem com toda a sinceridade; é imparcial: não toma partido, visando ao seu próprio interesse; é sem hipocrisia, isto é, age com transparência e honestidade, sem esconder-se sob a máscara da mentira ou das aparências enganosas… Sem dúvida, essa “sabedoria que vem do alto” é o caminho que Jesus trilhou nesta terra a fim de construir o reino de Deus. É também o caminho para os cristãos de todas as épocas.

Até a próxima semana com: A Leitura Cristã da Bíblia – Catequese Bíblico Missionária.