Podcast Play Pequeno Monge Agostiniano – Tema do 24º Domingo do Tempo Comum – Ano B


Leituras:
Isaías 50, 5-9a
Salmo 116, 1-6, 8-9
Tiago 2, 14-18
Marcos 8, 27-35


Chegamos ao ponto culminante da “pedagogia” messiânica de Jesus (evangelho). Até agora, todo mundo e também os discípulos foram descobrindo traços excepcionais em Jesus. Uns o consideravam João Batista reencarnado; outros Elias, de volta para anunciar o Dia do Senhor (cf. Ml 3,23-24). Mas Simão Pedro, falando pelos Doze, diz claramente: “Tu és o Messias”. Agora, Jesus lhes faz ver o que se deve entender por esse título. Pedro pensava provavelmente num “Filho de Davi”, num guerreiro, herói nacional, libertador da opressão estrangeira etc. Mas Jesus quer revelar um outro sentido do ser Messias. Proíbe aos Doze falar daquilo que Pedro reconheceu, pois levaria a perigosos mal-entendidos (com isso, Marcos justifica por que Jesus em sua vida não se fez conhecer como Messias). Ensina-lhes que o “Filho do Homem” – a figura que encarnava a intervenção escatológica de Deus, cf. Dn 7,13-14 – devia sofrer, morrer e ressuscitar (mas parece que Pedro nem ouviu este último verbo, pois reage violentamente com “isso nunca de minha vida”). Réplica de Jesus: “Vai atrás de mim, Satanás, pois tu estás preocupado com o que Deus quer e sim com o que os homens querem”. Que censura para aquele que, pouco antes, liderou a proclamação da fé messiânica!


A partir deste episódio começa a segunda parte do evangelho de Marcos. Já não descreve as lidas de Jesus com a multidão, e sim, o ensinamento aos Doze, as discussões com o judaísmo de Jerusalém e a Paixão e Morte. Explica o modo de ser messias de Jesus, não o modo do poder externo, do messianismo político, mas o modo que atinge o interior das pessoas, prefigurado na figura do Servo Padecente do Senhor (cf. 1ª leitura). Jesus mostra uma nova “leitura” do messianismo veterotestamentário. Em vez do messianismo guerreiro, lembra os cânticos do Servo Padecente, sobretudo ls 52, 13-53, 12; os textos de Sf sobre os pobres de Javé; de Zc 9 e 12 sobre o messias manso e humilde e o bom pastor; de Dn 9, 25-26, sobre o “Ungido” morto pela população da cidade etc. Mas ao mesmo tempo, diverge do messianismo corriqueiro sob um outro ângulo ainda: esse messias sofredor tem a autoridade do Filho do Homem (Mc 2, 10-28; 8,38 etc.); é o executivo escatológico de Deus. E, contudo, é rejeitado e morto. Este paradoxo é que provocou a veemente reação de Pedro, e é exatamente o que devemos aprender a aceitar.
Para apreender um mistério existe só um caminho: penetrar nele. Um teorema aprende-se o rodeando com raciocínios: “compreende-se”. Um mistério não. Não cabe em nossos raciocínios, transborda-os. Envolve-nos. Só se entende penetrando nele. Quem quer aceitar Jesus, tem que o conhecer por dentro. Tem que repartir sua experiência. Tem que ir com ele, ser seu seguidor, seu discípulo. O mistério da cruz só se entende assumindo-o (como espírito do Mestre, é claro). Quem se quer salvaguardar, perde sua chance. Mas quem se arrisca, realiza-se de uma maneira que nunca antes suspeitou. Nisto consiste a “revelação”. Não em doutrinas intelectuais, mas na opção por um caminho diferente para viver, que Jesus nos mostra e abre: o caminho da cruz.

A 2ª leitura, como toda a Carta de Tiago, oferece exemplos do que é o caminho da cruz, da negação de si mesmo. Não é imediatamente um martírio público ou sei lá o quê. É a abnegação de si mesmo nas pequenas coisas práticas. Não apenas desejar bem-estar aos outros, mas repartir com eles do que é seu, tirar algo de si para ser realmente irmão e “próximo” do necessitado. Fé não é uma adesão meramente intelectual; é escolher o caminho da negação de si em prol do irmão. E isso, porque Cristo no-lo mostrou. Porque lhe damos crédito, na experiência única que ele teve de Deus e que ele quer repartir conosco.

Uma atitude fundamental para realizarmos essa participação é a “obediência”, no sentido bíblico: o “dar audiência” àquilo que é maior do que nós: o mistério de Deus, que normalmente se apresenta em nossos irmãos. Esta obediência é que caracteriza o Servo de Javé (Is 50,4b) e aquele que realiza plenamente o caminho do Servo, Jesus Cristo (Fl 2,8). Não a obediência constrangida do medo do inferno, mas a obediência do amor, o tornar-se atento para o amado. A liturgia de hoje, nas suas orações, nos convida a esta atitude: servir Deus de todo o coração, para sentir seu amor por nós (ideia da participação; oração do dia); sermos movidos não mais por nossos impulsos, mas pelo sacramento, ou seja, o sinal que toma o amor de Deus eficaz em nós (oração final).

Até próximo: A Leitura Cristã da Bíblia – Catequese Bíblico Missionária.