Podcast Play Pequeno Monge Agostiniano – Tema do 23º Domingo do Tempo Comum – Ano B



Com sua apresentação do “humanismo” de Jesus (cf. dom pass.), Marcos não quer apenas mostrar que Jesus era um grande filantropo, mas que nesta atitude consiste o cumprimento do plano de Deus, aquilo que tradicionalmente se chama a “paz”, o dom de Deus trazido presente por seu Ungido, o Messias. O evangelho de hoje mostra isso claramente. Chegamos quase ao fim da primeira metade do evangelho de Marcos, em que ele mostrou que em Jesus há um “quê” de messiânico. Na segunda parte, ele mostrará o que exatamente é messiânico em Jesus e como deve ser entendido. O evangelho de hoje deve preparar a exclamação de Pedro que inaugura a segunda metade de Marcos: “Tu és o Messias” (cf. Evangelho do próximo domingo).

Unindo em uma só pessoa dois defeitos, a surdez e a mudez, Marcos lembra imediatamente o texto de Is 35, lido na 1ª leitura, onde a cura de surdos e de mudos faz parte do tempo messiânico. E, para reforçar a nota, o povo exclama: “Ele fez tudo bem feito”, vislumbrando a obra messiânica de restauração do paraíso (cf. também Is 35). Lembra como Deus “fez tudo bem” no início (Gn 1,31 etc.). Porém, a intenção de Marcos vai mais fundo. Para reconhecer que Jesus é o Messias é preciso que o homem esteja aberto. Ora, nem mesmo os discípulos eram fáceis de “abrir” (8,14-21!). Jesus não apenas “faz as coisas bem feitas”, ele abre também o coração para ver o Reino de Deus, que está aí, onde se faz a sua vontade e se revela seu amor. Por isso, Marcos insiste quase exageradamente no gesto material com que Jesus faz seu “trabalho”: impor as mãos, aplicar saliva, elevar os olhos, gemer, dizer effatá, “abre-te”… Não é fácil abrir o homem para o mistério de Deus.

Ora, se acreditamos que, com Jesus, chegou o Reino de Deus, não dá mais para voltar para trás. O que ele fez tão bem feito, nós o devemos continuar fazendo. É hoje o momento para prestar um pouco mais de atenção à Carta de Tiago, cuja leitura foi iniciada no domingo passado. Ensina o que é o Reino de Deus na prática da Igreja; fazer como Deus: tudo bem feito. Para Deus não há acepção de pessoas (2ª leitura). Então, para a Igreja também não. O rico não tem nenhuma precedência sobre o pobre. Mais ainda. Para mostrar seu amor, Deus escolhe quem mais precisa: os pobres. Para provar que não rejeitamos ninguém, devemos dar a preferência àqueles que normalmente são rejeitados. Quem quer provar seu amor por todos deve começar pelos últimos. É por isso que, no Reino de Deus, os últimos serão os primeiros. Claro, isso não se deve fazer “para ser visto”, transformando o pobre em ocasião de ostentação caritativa. Deve ser a expansão espontânea do amor, como uma mãe espontaneamente consagra atenção maior à criança que mais precisa. A própria Igreja surgiu, graças a este princípio. Não foi a Igreja constituída pelos que o judaísmo rejeitou, os “ignorantes”? Pelos que o paganismo desconsiderou: os escravos, os migrantes, os que não “contavam” para a sociedade pagã? No próprio evangelho, os sofridos e carentes de todo o tipo tomam-se os destinatários dos sinais do Reino e seus melhores propagandistas.

Não que Deus seja contra os ricos. Ele mesmo criou a riqueza para o bom uso. Mas é quanto a esse bom uso que surge divergência entre Deus e o rico, que acha que Deus fez tudo isso só para ele… Para poder repartir, a gente sempre deve receber de Deus. Aí está o problema do rico. Se estiver cheio de si mesmo, não é mais capaz de receber e aprender de Deus o que é graça e gratuidade; perde também a capacidade de abrir sua mão e seu coração. Por isso, quem é grande e poderoso deve admitir que fosse pobre e criança, frágil e carente. Então, Deus poderá consagrar sua atenção também a ele. Então, entenderá também que deve contribuir para mudar o mundo, para que encarne melhor a bondade de Deus que ele mesmo experimentou.

Até o próximo fim de semana com: A Leitura Cristã da Bíblia – Catequese Bíblico Missionária.