Podcast Play Pequeno Monge Agostiniano – 14º Domingo do Tempo Comum – Ano B




Liturgia da Palavra
Ez 2, 2-5
Sl 122, 1-2.3-4
2Cor 12, 7-10
Mc 6, 1-6

Jesus, profeta rejeitado na sua terra

A liturgia deste 14º Domingo do Tempo Comum mostra a sorte dos profetas: à rejeição. Tema atual, sobretudo no continente Latino-Americano em especial na região Amazônica como o bispo Dom José Luís Azcona Hermoso, OAR (Bispo da Prelazia do Marajó) e de tantos outros que se tornaram mártires da justiça de Deus. Alguns desaparecem até sem deixar traços, mas sabemos que estiveram entre nós (Cfr. 1ª leitura: Ez 2,5). Ezequiel é enviado a um povo “duro de cerviz”, mesmo enquanto vivendo no exílio (Cfr. 3,12-15). Como outrora Jeremias (Jr 2,20; 7,24; 22,21; 32,20), Ezequiel lembra a Israel seu passado rebelde. É um povo que se revolta contra Deus e mata seus profetas, inclusive Jesus de Nazaré (Cfr. Mt 23, 33-35; At 7, 34. 39. 51-53 etc.).
O profeta deve marcar presença; goste ou não, o povo deve saber que o porta-voz de Deus esteve no meio dele (Ez 2,5). Daí o duplo sabor da missão profética: o profeta tem que comer a palavra de Deus, que é doce como mel, mas causa amargura no profeta (Ez 2, 8-3, 3; 3, 14; Cfr. Ap 10, 8-10). Aceito ou não (Ez 3,11), tem de proclamar, oportuna ou inoportunamente (2Tm 4, 2). Profeta não é diplomata. Há um momento em que a palavra deve ser dita com toda a clareza: é o momento do profeta.

O evangelho de João Marcos descreve a manifestação do “poder-autoridade” em Jesus. Ao revelar seu “poder”, Jesus encontrou aceitação da parte dos humildes, doentes e pecadores, e inimizade junto às autoridades. Agora, chegando à sua terra de origem, Nazaré, encontra tanta incredulidade, que deve dar testemunho contra sua própria gente (Evangelho). Por não existir fé, o espírito profético nele não encontra respaldo; quase não lhe é dado operar sinais (Mc 6, 5-6). Pois sabemos, pelos evangelhos dos domingos anteriores, que os sinais de Jesus são a revelação, para os que nele acreditam de sua união com o Pai. A uma geração incrédula não se dá sinal algum (Mc 8, 11-14; Cfr. Mt 12, 38-42 e Lc 11, 29-32). Mas, mesmo se Jesus não pode fazer milagres em Nazaré, ainda revela sua personalidade. O próprio fato de ser rejeitado demonstra que ele é profeta: é em sua pátria, entre sua gente, que o profeta é rejeitado (Cfr. Ez 3,6)1

A razão por que Jesus não é escutado é a mesquinhez. Gente mesquinha não presta ouvido a quem é da mesma origem. Santo de casa não faz milagre. Para se fazer de importante, gente mesquinha exige coisa importada. Os semi-intelectuais brasileiros adoram o último grito que vem de outros lugares, mas desprezam a cultura autêntica das tradições de seu próprio povo e odeiam a cultura emergente que nasce da base conscientizada e que denuncia a alienação institucionalizada. A flor do orgulho é o espírito estreito e mesquinho, incapaz de admitir que tão perto do brilho enganoso possa florescer flor admirável de verdade.

Devemos ver, também, nas críticas dos nazarenses, as objeções do judaísmo à pregação apostólica. Como pode Jesus ser o Messias, se conhecemos seus parentes até o presente dia? Eles nem mesmo ocupam altos cargos no seu Reino (Cfr. 10,35-40). A incredulidade de Nazaré representa a incredulidade de uma tradição religiosa e sociológica que não quer mudar seus conceitos a respeito daquilo que Deus deveria fazer. Por isso, Deus também não faz nada: não dá sinal.

A experiência de Paulo (2ª leitura) vai na mesma direção. Paulo descreve as dificuldades de seu apostolado, “gloriando-se” contra aqueles que se gloriam na observância judaica e outros pretextos para destruir a obra da evangelização que ele está realizando. Pede a seus leitores suportar um pouco de loucura da sua parte: seu próprio elogio (2Cor 11, 1). Mas que elogio! O currículo de Paulo não está cheio de diplomas, concursos e obras publicadas, mas de loucuras mesmo (11, 8. 16. 29). Gloria-se de sua fraqueza (11, 30). Tem um aguilhão na carne, algo misterioso – os exegetas falam em doença, prisão, tentações, remorso de seu passado –, “um anjo de Satanás”, uma provação semelhante à de Jó. Importa o sentido que Paulo lhe dá: impedir que se encha de soberba. O evangelho vale mais que ouro, mas o apóstolo é apenas um recipiente de barro (2Cor 4,6ss; Cfr. 9° dom. T.C.). Se ele produz efeito, é o espírito de Deus que o produz. Para o apóstolo, basta a graça, isto é, que Deus realize sua redenção, sem depender de nossas qualidades humanas (embora as utilize e absorva). Em nossa fraqueza é que seu poder se manifesta. Jesus não pôde fazer milagres em Nazaré: fraqueza também. Mas Deus realizou seu plano na suprema “fraqueza” do Cristo: sua morte na Cruz (Cfr. Oração do dia). Junto a ele há lugar para os “fracos”; nele, tornam-se fortes (Cfr. Canto da Comunhão II).


Nota do autor1Aconselho o estudo do trecho Ez 2,1-3,15 inteiro. Ez 3,6 sugere que as nações pagãs, entre as quais Israel agora deve viver, escutar a palavra (Cfr. Livro da Profecia de Jonas).