PodCast Play Pequeno Monge Agostiniano – 12º Domingo do Tempo Comum – Ano B




Liturgia da Palavra
Jo 38, 1, 8-11
Psalm 107, 23-26, 28-31

2 Coríntios 5, 14-17
Marcos 4, 35-41

A pergunta dos discípulos, no fim do evangelho: “Quem é esse, a quem até o vento e o mar obedecem?” (Mc 4,41). Estamos ainda em pleno segredo messiânico. Aproximamo-nos, porém, do momento em que esse segredo será parcialmente desvendado, pelo menos para os discípulos, embora sem que o compreendam (Mc 8,27-30). Poderíamos esperar uma resposta dos discípulos à sua própria pergunta, pois quem conhece o A.T. sabe a quem o vento e os mares obedecem. 


A Jó, que importuna a divina providência com seus pensamentos “obscurantistas” (Jó 38,2), Deus pergunta: “Quem fechou com comportas o mar?” (38,8; 1ª leitura). Até que Jó se dá conta do estado nebuloso de seu pensar e confessa: “Disseste bem: Quem obscurece assim a providência com discursos tolos? Falei de maravilhas que me superam sem compreendê-las. Fizeste bem, interrogando-me para que respondesse. Meus ouvidos tinham ouvido falar de ti, mas agora meus olhos te viram. Agora posso retirar-me” (42,2-6; tradução livre). O livro de Jó não é só, nem principalmente, um livro de lamúrias. É uma profissão de fé no Deus Criador e Mantenedor da criação (providência). Reclamar contra a manutenção de Deus (a miséria de Jó) testemunha uma visão muito curta, se Deus fez tantas coisas maravilhosas e insondáveis no universo. A Bíblia nega-se a dar uma resposta superficial a problemática de Jó, mas lhe dá como pano de fundo o mistério do Deus vivo e verdadeiro.

Os discípulos no barco se acham em perigo de vida e repreendem Jesus porque o medo que eles têm não o preocupa! Jesus, que ate então dormiu, acorda e com um gesto e uma palavra exorciza o mar, como se dele expulsasse um espirito imundo: “Cala-te, emudece!” Parece brincar com a tempestade, que era considerada pelos pescadores obra de algum mau espirito. Jesus, ao contrário deles, faz pensar em Deus que criou o mar para o monstro marinho, Leviatã, nele brincar (cf. Sl 104[103],27). Nem mesmo assim eles entendem quem ele é…

Jesus pergunta-lhes se ainda não tem fé. Não é apenas uma questão de saber quem ele é não basta reconhecer nele o poder do Filho do Homem, ou do próprio Criador. É preciso ter confiança neste poder, ter fé. Aliás, é a única maneira de reconhecê-lo de verdade. (Nossas igrejas estão cheias de pessoas que enchem suas cabeças com dogmas, achando que isso é ter fé, mas não confiam sua vida ao rumo indicado por Cristo!) Os discípulos deviam ter entendido por que Jesus ficava dormindo: porque ele tinha fé! A expressão pode parecer chocante, mas é isso mesmo: Jesus é Filho de Deus mediante a fé, porque ele conhece Deus por dentro e é completamente dele. Jesus é Filho de Deus, porque sempre se confia plenamente a ele. Pois fé é entrega. Jesus conhece a providencia de Deus e tem plena confiança nela. Por isso, revelam-se N’ele as grandes obras da providência, assim como, segundo sua palavra, se revelarão em todo aquele que tiver verdadeira fé (Mc 11,23-24 etc.). Crer é como Jesus penetrar na intimidade de Deus.

Formamos com Cristo uma “unidade corporativa” (2ª leitura). O amor de Cristo por nós é tão grande, que de algum modo nos identificamos com ele: somos seu corpo (cf. Cor 12, l2ss; Rm 12,4-5); “encorpamos” o Cristo. Para Paulo, isso é muito real. Do pensamento hebraico, ele herdou a sensibilidade pela “personalidade corporativa”, que identifica, por exemplo, a tribo com o chefe, o povo com o patriarca (Israel), a dinastia com o fundador da dinastia (Davi) etc. Assim também nós formamos uma real unidade pessoal com o Cristo, que nos ama como sua própria carne (Ef 5,28-31). Ora, este Cristo morreu “por” nós. Este “por nós” não significa, meramente, “em nosso lugar”, como às vezes se entende a morte substitutiva de Cristo. Ninguém poderia justificar outro sem a participação ativa do que deve ser justificado. O “por nós” deve ser entendido corporativamente: no “chefe da linhagem” morre toda a linhagem; todos nós morremos em Cristo e com Cristo (cf. Rm 6,1 ss). Mas é preciso que participemos desta morte: por isso devemos morrer “para ele” que “por nós” morreu e ressurgiu.

Achamos estranho este pensamento corporativo. Não é a maneira normal de considerar Jesus, a maneira meramente humana, “carnal”. Nossa incorporação em Cristo é uma realidade espiritual. Diz respeito à criatura nova que somos no Espírito. Paulo nem quer mais conhecer a Cristo de modo “carnal”. Isso não quer dizer que ele não dá importância à história humana de Jesus. Quer dizer sim que esta história humana não e apenas humana, mas divina. É a história de Deus que nos renovou em Cristo.